O estresse da infância que compromete a vida adulta: novo livro de Paul Tough mostra como caráter é mais vital que conhecimento

O novo livro do editor do The New York Times, Paul Tough, intitulado “How Children Succeed: Grit, Curiosity, and the Hidden Power of Character” (Como as Crianças Conseguem: Persistência, Curiosidade e a Força Oculta do Caráter), lançado em setembro nos Estados Unidos, revela a conexão íntima e “avassaladora” entre traços de personalidade e caráter nascidos na infância e o desempenho na vida adulta. Mostra mais que isso: como esses traços não-cognitivos são mais importantes do que as habilidades cognitivas e testes objetivos – como QI e exames americanos como o SAT – e também como a maioria deles é definida nas condições emocionais, afetivas e familiares que as crianças vivem na infância. “Muito do que pensávamos saber sobre o efeito da pobreza no desenvolvimento infantil está errado. O que parece ter mais efeito são os ambientes caóticos em que essas crianças crescem e os relacionamentos frequentemente estressantes que elas tem com os adultos à sua volta”, diz o autor.

Paul Tough revela no livro que os principais insights começaram numa das pesquisas que utilizaram os dados do índice ACE (Adverse Childhood Experiences), publicada em 2002 sob o título “The Relationship of Adverse Childhood Experiences to Adult Health: Turning gold into lead” (pdf) (A relação entre as Experiências Adversas na Infância e a Saúde Adulta: Transformando Ouro em Chumbo). Nela, o psicólogo Vincent J. Felitti, diretor do Departamento de Medicina Preventiva do Kaiser Permanent, uma enorme organização de saúde baseada na California (EUA), mostra “a conversão de experiências emocionalmente traumáticas na infância em doenças orgânicas na vida adulta”, e afirma que são problemas que “o tempo não cura“. As pesquisas do ACE, iniciadas nos Anos 90 e ainda em evolução, estudaram previamente 17 mil crianças em algumas instituições escolares americanas (como a própria Kaiser Permanent) e medem a influência de 10 adversidades vividas na infância na idade adulta – negligência física ou emocional, abuso físico, sexual ou emocional, abuso doméstico de substâncias, violência contra a mãe, separação, pais presos ou com doenças mentais (veja aqui). O agente principal que carrega os danos das situações de infância para a idade adulta, segundo Paul Tough, é o estresse.

Em um artigo publicado na semana passada no The New York Times intitulado “The Psych Approach” (A Abordagem Psíquica), o colunista David Brooks explora os alarmantes números relatados no livro, principalmente como se relacionam com os achados dos índices ACE. Brooks qualifica como “avassaladora” a conexão entre os traumas de infância e os resultados na idade adulta:

“Pessoas com um índice ACE de 4 tinham 7 vezes mais chances de serem alcoólatras na idade adulta do que pessoas com índice ACE de 0. Tinham também 6 vezes mais probabilidade de manterem relações sexuais antes dos 15 anos, 2 vezes mais chances de ser diagnosticado com câncer, 4 vezes mais chances de sofrer de enfisema. Pessoas com índice ACE acima de 6 tinham 30 vezes mais chance de tentar suicídio. Pesquisas posteriores sugeriram que apenas 3% dos alunos com um índice ACE de 0 tinham problemas de aprendizado ou de comportamento na escola. Entre os estudantes com um índice ACE de 4 ou mais, 51% tinham esses problemas”.
~ David Brooks, em ˜The Psych Approach”

Vários outros estudos podem ser encontrados sobre essas conexões entre desenvolvimento e saúde baseado no ACE. Uma lista dos principais está disponível no site do Centers for Disease Control and Prevention.

Perguntado como escrever o livro o afetou como pai, Paul Tough respondeu:

“No fim das contas, essa pesquisa teve um efeito surpreendente: me tornou um pai mais calmo. Quando Ellington nasceu, eu estava muito preso à idéia da infância como uma corrida – quanto mais rápido a criaça desenvolver suas habilidades, melhor ele será nos testes, e melhor ele será na vida. Escrevendo esse livro, estou menos preocupado com as habilidades de ler e contar do meu filho. Não me interprete mal, eu ainda quero que ele saiba essas coisas. Mas acho que ele vai chegar lá no tempo certo. O que me preocupa é seu caráter – ou qualquer que seja a palavra certa para definir o caráter quando estamos falando de uma criança de três anos. Quero que ele saiba lidar com a frustração, saiba se acalmar, saiba se manter trabalhando sobre um problema mesmo quando é frustrante, que seja bom em compartilhar, que se sinta amado e confiando e cheio de um sentido de pertencimento. Mais importante, quero que ele seja capaz de lidar com o fracasso”.
~ Paul Tough, em paultough.com

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

15 Comentários

  • Despues de muchos ,muchos anos intercambiando experiencias y escuchando personas de todas las edades ,comprobe ,que no es la posicion social , financiera o cultural de una familia la que cria hijos de conducta ejemplar y eticamentes correctos . Existe algo mucho mas profundo ,padres y sobre todo madres con sentido de dedicacion, amor ,armonia .El ejemplo amoroso,el pensamiento volcado a los hijos aunque tengan que trabajar fuera del hogar .La persistente comunicacion telepatica con los hijos hace milagros en un hogar Creo que este breve mensaje da idea de lo que quiero significar , El tema es mucho mas amplio e importante, sobre todo es este momento donde muchas mujeres no entendieron su papel en el hogar y en la alimentacion de los hijos . Donde quedo la mesa familiar y el olor a comida de la mama ????? Perdon amigas ……..

  • O mundo não precisa de mais seres humanos em pedaços.
    E o post, lembrou-me tudo abaixo:
    Grata e Boa Sorte,Norma
    (“Todos os canalhas foram crianças infelizes.” – Ziraldo)
    ++++

    “Vossos filhos não são vossos filhos,
    são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
    Vêm através de vós, mas não de vós.
    E embora vivam convosco, não vos pertencem.
    Podeis outorgar-lhes vosso amor,
    mas não vossos pensamentos.
    Porque eles têm seus próprios pensamentos.
    Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
    Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
    que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
    Podeis esforçar-vos por ser como eles,
    mas não podem fazê-los como vós,
    Porque a vida não anda para trás
    e não se demora com os dias passados.
    Vós sois os arcos dos quais vossos filhos
    são arremessados como flechas vivas.
    O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito
    e vos estica com toda a sua força
    para que suas flechas se projectem rápido e para longe.
    Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria;
    Pois assim como Ele ama a flecha que voa,
    ama também o arco que permanece estável.”

    (Gibran Kahlil Gibran – O Profeta)

    (…)

    Toda esta reflexão parte do que tenho assistido nestes últimos anos e de algumas experiências recentes com mães e (pais) que não amam, mas possuem… que pensam em si mesmos e os filhos são os seus objectos de pertença, que “servem” para consolar, para preencher vazios e carências afectivas que tem um carácter transgeracional, gerando padrões sucessivos de negligência e mau trato…

    Porque fazer de um filho um prolongamento de nós mesmos é mau trato…Um filho é um ser independente, mas ainda assim dependente do nosso amor, da nossa capacidade de dar… “TER” um filho a pensar e si mesmo não é amor, é uma forma de posse… Não ter disponibilidade para amar e ainda assim querer colocar, por orgulho, um filho numa no man´s land, onde há frieza e onde a criança não tem estabilidade, onde não consegue ler os sinais na mãe que lhe permitem descodificar o mundo, as suas virtudes e os seus perigos é mau trato…

    Colocar a criança on ice, à espera de que um dia se consiga resolver as mágoas e angustias que alguém que devia ter cuidado e amado implantou no coração de algumas crianças que se tornaram adultos á força, ou forçosamente cresceram para sobreviver, é negligenciar…

    Posto isto, temos de olhar para a vinculação, como factor imperativo que contribui para o desenvolvimento saudável da criança e do adulto. A relação privilegiada, entre mães e filhos e entre pais e filhos, entre Progenitores (vistos como aqueles que protegem), é a condição sine qua non para o bem-estar, para estar seguros, enraizados mas, tal como a árvore que tem raízes seguras, poder crescer de forma imponente e audaciosa para o céu dos nossos sonhos…

    Na vinculação, o outro é visto como uma base segura, a partir da qual o indivíduo pode explorar o mundo e experimentar outras relações, assim há que quebrar padrões de vinculação inseguros, ambivalentes… Há que intervir com as famílias para quebrar ciclos de “amor – posse”. Neste “amor-posse”, cria-se um mundo onde as crianças se “reclamam”, onde são “precisas” para nos sentirmos bem, onde não as queremos mas não as”damos” porque são do nosso sangue, são “minhas”… Há que intervir para garantir às crianças que são amadas e sobretudo respeitadas! Sim, porque as crianças, sentem, pensam, sofrem… Captam os sinais que são ditos em silêncio e percebem, muito antes e para além das palavras, o que é o amor…

    (…)

    Amor não é posse
    Celina Carvalho
    2011

    http://www.psicologia.pt/artigos/imprimir_o.php?codigo=AOP0279

  • Depois de tantas citações excelentes, principalmente a de Gibran, só posso dizer que:”na medida em que tratarmos nossas crianças, teremos uma sociedade mais saudável e menos violenta.Elas são o espelho de nossas ações e reações.”
    Pais estressados e violentos só podem gerar futuros adultos desajustados.

    • Cly,

      Sabe quem “divide” essa praia contigo?
      Educadores portuguêses (Ufa! Que estresse se tornou p/eles o cotidiano, com a nova realidade lusitana).

      “Rousseau: Breve vida e Obra” (matérial da 6a. série)

      (Achei o vídeo fantástico, Nac.♥)

      Animação que mostra as ideias de Rousseau, o primeiro filósofo a entender a infância como um momento importante da vida do ser humano.

      http://youtu.be/0j-9a8hp3SU

      (recebido by e-mail do Aventar – Portugal)

      Semana boa e Fiquem Bem!
      Norma

      P.S.
      De novo: “Todos os canalhas foram crianças infelizes.” – Ziraldo

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