Sri Aurobindo e o espírito de caridade: Por que você quer servir à humanidade? Qual o seu propósito?

Por que você quer servir à humanidade?“, pergunta o filósofo yogue indiano Sri Aurobindo (1872-1950), autor do Yoga Integral, no início desse provocativo artigo que questiona insistentemente os motivos mais reais que nos impulsionam a servir, a trabalhar e a ajudar. O ceticismo de Aurobindo em relação ao espírito de ajuda é uma maneira de incitar nossa percepção sobre nós mesmos e nosso ego, e sobre o efeito que julgamos ter na sociedade. Aurobindo faz afirmações bastante fortes como “não penso que o espírito de caridade tenha, de modo algum, melhorado as condições humanas”, mas, ao mesmo tempo, também diz que “você pode fazer bem aos outros, se souber qual é este bem e se possuí-lo dentro de si mesmo”.

O artigo está no livro “O Yoga de Sri Aurobindo“, partes V a VII, de Nolini Kanta Gupta, pg. 247 (Editora Shakti).

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SERVIÇO HUMANO E SERVIÇO DIVINO” [trecho]
Por Sri Aurobindo

Por que você quer servir à humanidade? Qual o seu propósito? Qual o seu motivo? Você sabe em que consiste o bem da humanidade? E você sabe melhor que a própria humanidade o que é bom para ela? Ou você sabe melhor que o Divino? Você diz que o Divino está em todo lugar, assim, se servir à humanidade, é ao Divino que você serve. Bem, se o Divino está em todo lugar, ele também está em você; portanto, a coisa melhor e mais lógica seria começar servindo a si mesmo.

Não há, então, nenhuma necessidade de serviço à humanidade? Hospitais, organizações assistenciais, instituições de caridade não têm sido úteis à humanidade? O espírito de filantropia não consertou e melhorou as condições da vida humana?

Foi assim, pergunto eu? Você tentou ajudar algumas pessoas aqui e ali. Mas o que vale isso comparado ao que precisa ser feito? A proverbial gota no oceano ou até menos que isso! Você se lembra da história de São Vicente de Paula? Ele começou dando esmolas aos pobres. No primeiro dia havia dez, no segundo mais ou menos vinte, no terceiro mais que cinquenta e o número continuou aumentando mais do que uma progressão geométrica. E então, Colbert, o Ministro do Rei observou, vendo a situação do santo: “Nosso irmão parece que está gerando continuamente seus pobres”.

Não penso que o espírito de caridade tenha, de modo algum, melhorado as condições humanas. Não acho que o homem tenha se tornado mais ou menos sujeito a doenças e indigências do que antes. A caridade esteve sempre presente e a miséria sempre coexistiu com ela. Não penso que a proporção entre as duas tenha diminuído de modo algum. Você se lembra da observação irônica, mas pertinente, de alguém que disse, em vista das tentativas da ciência de curar e erradicar a miséria: “Os pobres filantropos estariam em triste situação, suas ocupações acabariam”. A verdadeira razão pela qual alguém deseja fazer caridade, está alhures: é para deleitar-se, é para sua própria satisfação. Fazer coisas o diverte, dá-lhe a sensação de que está fazendo algo, que é um membro valioso da humanidade, não como os outros, que você é alguém. Que outra coisa poderia ser, senão que você é vaidoso, cheio de auto-importância, cheio de si mesmo? Isto é o que tenho em mente quando digo que é a presunção ou o egoísmo que faz de você humanitário. É claro, se lhe agrada fazer o trabalho, se você sente-se feliz fazendo-o, tem toda a liberdade de fazê-lo e de continuar assim. Mas não imagine que está fazendo algum serviço real e efetivo para a humanidade, especialmente não imagine que com isso você está servindo a Deus, levando uma vida espiritual ou praticando Yoga.

Apenas uma ilustração da qualidade do espírito que anima o humanitarismo: um homem caridoso dá generosamente a uma causa conhecida, reconhecida, apreciada; será liberal se seu nome for vinculado ao trabalho, anunciado e apregoado, se isso lhe der fama. Mas peça-lhe uma doação para algo genuíno, comparativamente modesto ou fora do comum, algo que seja verdadeiramente espiritual e divino, e você verá os cordões de sua bolsa se estreitarem, seu coração fechar-se. Uma dádiva que não traz importância para o doador, não tenta o humanitário comum. Existe, é verdade, uma outra categoria diferente de doadores, de uma espécie oposta, daqueles que querem precisamente conservar-se anônimos, dos que ficariam descontentes se seus nomes fossem anunciados. Mas o motivo aqui também não é muito diferente, é, de fato, o mesmo motivo agindo ao contrário, como se fosse para trás. Aí existe um elemento adicional de auto glorificação: dá-se e não se sabe quem deu. E algo a mais para se ficar orgulhoso.

Você deve olhar-se dentro, questionar-se, antes de empreender qualquer coisa, e não fazê-lo simplesmente porque é a coisa normalmente feita. Você pode fazer bem aos outros, se souber qual é este bem e se possuí-lo dentro de si mesmo. Se quiser ajudar aos outros você deve estar num nível superior ao deles. Se estiver em pé de igualdade com eles, no mesmo plano, em natureza e consciência, que pode você fazer, a não ser partilhar de sua ignorância e de movimentos cegos e perpetuá-los? Assim, acontece que, realmente, a primeira coisa a fazer, é servir a si mesmo.

Você fará uma descoberta notável quando começar a saber o que você é e quem você é. É assim que deveria principiar: “Quero servir à humanidade. Como posso eu servi-la? Quem é este “eu” que quer servir?” Você diz: “Eu sou esta pessoa, esta forma e este nome”. Mas a forma que você é agora, não é aquela que você tinha quando era um bebê. Ela está mudando constantemente. Todos os elementos de seu corpo estão sendo completamente renovados. Nem as suas impressões e sentimentos são aqueles que você tinha há poucos anos atrás. Seus pensamentos e ideias sofreram revoluções. O “eu” cobre uma soma de fatores sempre mutáveis. Não há nada especialmente para ser chamado de “eu”, é apenas um círculo de mudanças. Um nome vazio parece ser a única coisa constante. Um elemento, num certo momento, vem à frente — uma ideia, um sentimento, um impulso — e isso é seu “eu” por um momento. Num outro momento, um outro elemento surge e se torna seu “eu”. Você não é um “eu” único, mas uma multidão de muitos “eus”. Portanto, que valor tem a afirmação de que um destes “eus” encontrou o alvo, a verdade, o dever que você tem que seguir? E se você prosseguir mais além, questionando-se e analisando-se completa e sinceramente, tropeçará na realidade. Você descobrirá que o “eu” não existe de modo algum. O que existe é alguma coisa mais: é a realidade indivisível, o Divino apenas.

É esta auto descoberta que lhe dará o conhecimento básico, a fundação de sua vida, a descoberta de que seu “eu”, como você mesmo, não existe; na verdade você não é nada. Este sentido de nulidade deve permear seu ser, encher todos os elementos de seu ser, antes que a verdade possa raiar em você e a Presença Divina possa ser sentida. E o que você tem feito todo o tempo é exatamente o contrário, afirmando seu egoísmo, sua vaidade, pretendendo que você seja alguém que possa fazer algo, que o mundo precisa de sua ajuda e que você tem a possibilidade de dar esta ajuda. Nada disso. Quando você descobre esta verdade e a aceita, quando é humilde e, em verdadeira humildade, se acerca da vida e da realidade, você encontrará sua verdadeira carreira e vocação.

Num sentido mais profundo é, na verdade, servindo a si mesmo que você serve melhor aos outros. Quando você descobre um ponto escuro em si, um grão de egoísmo, de ambição, de amor próprio, quando você não cede a seu impulso, mas supera-o, quando conquista em si um movimento que o levaria a se extraviar, nesse mesmo gesto, você faz a conquista em benefício dos outros também, cria a mesma possibilidade nos outros. Não pode haver nada mais dinâmico do que esta colocação do exemplo pessoal. Não é para que os outros o observem e o imitem; a influência é mais sutil e mais poderosa. Você cria a oportunidade, faz a abertura, traz a força de sua realização para o jogo ativo, mesmo sem o conhecimento dos outros. E eles são beneficiados unicamente pela ajuda invisível que lhes é prestada. Mas você deve também tomar cuidado aí. Não deve dizer: “Devo melhorar-me para ajudar aos outros”. Não deve haver o mais leve vestígio desse espírito de intercâmbio ou barganha. Limite-se à sua própria vida; como os outros são ou não afetados, não é da sua conta. Se você abrigar esta espécie de ideia, estará convidando a mesma vaidade e egoísmo pela porta traseira. Sua vida deveria ser como o desabrochar de uma flor que floresce pela própria alegria da autorealização. No processo, pelo simples fato de existir, espalha seu perfume à volta, enche os arredores com sua vibração alegre. Mas isto simplesmente acontece, não se faz com um propósito ou intencionalmente. Do mesmo modo, procede a alma que se aperfeiçoa: a vitória que ela ganha para si é contagiosa, e se expande automaticamente.

Disse que seu ego é uma ilusão. Seu “eu” não existe em absoluto. Não há nada como individualidades distintas e separadas e realização individual. Somente o Divino existe e a Vontade Divina. Ele é a realidade solitária e única e omni-abarcante. O que é então a fonte desta variedade e diversidade de existências? Qual é a significação, se existe alguma, das várias individualidades e personalidades, seu aparecimento e desempenho no palco do mundo?

Esta é uma outra história. Deixo-a para uma outra ocasião.”

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Compartilhado por Cristiano Richers.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

7 Comentários

  • Um ponto-de-vista interessante, dotado de lógica e coerência.

    Mas, pergunto-me: qual é esta ação pessoal a que se refere Aurobindo? Aliás, a que se referem tantos outros gurus que – não seria também vaidade – aceitam a denominação SRI.

    Parafraseando Aurobindo:

    Não penso que os gurus e suas falas cheias de sabedoria e verdade tenham, de modo algum, melhorado as condições humanas. Não acho que o ser humano tenha se tornado mais ou menos sujeito a doenças e indigências do que antes. Os Gurus sempre estiveram presentes e a miséria humana (mental, emocional, física) sempre coexistiu com eles e suas pregações. Não penso que a proporção entre as duas coisas tenha diminuído de modo algum.

    Pontos-de-Vista há muitos: vivemos cheios de idéias, cheios de sentimentos, “intuições”, verdades. E adoramos falar isso aos outros. Por caridade, zelo, auto-afirmação, vaidade? Penso que só quem faz pode verdadeiramente saber. E julgar a si mesmo.

    • Querido (*) Fabiano,

      (*) Não é um gerador de maiores intimidades. Simplesmente, você se tornou um ‘querido’ com o coment. acima, NESSE momento, para mim. E, como no meu mundo, eu sou a ‘rainha de copas do pedaço'(c/direito a flamingo na mão e tudo)…. aceite-o como elogio. Pisc*

      Catei nos ‘salvos do incêndio’, para você:
      LA VERDAD

      La verdad es que hay tantas verdades, como personas en el mundo.

      La verdad para un niño, es la que le dicen los grandes.

      La verdad para un joven, se la dicta el corazón.

      La verdad de un músico, está en sus propias canciones.

      La verdad para un político, varía según las encuestas.

      La verdad de una mujer, se demora nueve meses.

      La verdad para una víctima, es que sufre más que nadie.

      La verdad del delincuente, es que la maldad le sirve.

      La verdad de un escéptico, es difícil de creer.

      La verdad para un sicólogo, es que estamos todos locos.

      La verdad para un científico, es relativa.

      La verdad de un dictador, es su propia verdad.

      La verdad para un ingenuo, está en todas partes.

      La verdad para los pobres, es que no alcanza para el pan.

      La verdad para mi padre, era que todo era una mentira.

      La verdad para un abogado, la tendrá que demostrar.

      La verdad de un egoísta, es que nada se regala.

      La verdad para un surfista, es que sólo existe el mar.

      La verdad para el honesto, es decir siempre la verdad.

      La verdad para los viejos, es que queda poco tiempo.

      La verdad para un sueño, es hacerse realidad.

      La verdad para nosotros, es que tienes derecho a ver, porque verdad comienza con ver. ¡“Chilevisión”, televisión de verdad!
      http://vimeo.com/23220401

  • Ego, ego… bom no papel de servo e péssimo como patrão.

    Levo felicidade/bem quando feliz (bem-estar) estou. E só eu sei. Às vezes, nem a mim confesso, às vezes nem aparento ser, mas só eu sei – se o que FAÇO representa o que SOU. Norma
    ++++++++++
    Outras ‘inspirações’:

    O filósofo Zizek explica porque ajudar os outros às vezes só piora as coisas.

    http://youtu.be/hpAMbpQ8J7g

    “Talvez o problema do nosso tempo seja o de fazermos demasiado. Talvez devessemos inverter a frase de Marx e declarar: mudámos demasiado o mundo, é tempo de interpretá-lo.”
    Slavoj Zizek

    +++++++++++++
    “uma teoria ética que concentra a avaliação moral das nossas ações nas consequências que elas produzem. Ao rejeitar a importância dos valores absolutos como orientadores da ação, faz depender a bondade ou maldade das nossas decisões da particularidade das circunstâncias que condicionam as consequências do que fazemos. Devemos optar pelos atos cujas consequências maximizem o bem-estar de todos os implicados igualitariamente considerados (MAIA, 2004, p. 03).”

    Fonte: Para não confundir caridade com dever ético.
    Peter Singer e a obrigação de ajudar

    Leia mais: http://jus.com.br/revista/texto/20511/para-nao-confundir-caridade-com-dever-etico#ixzz239gsUlY5

    Boa Sorte!
    Norma

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