Por que clamas aos deuses, às estrelas, se o que te fere é a tua própria vida? A poesia de Rosario Castellanos

Por que?, pergunta a poeta mexicana Rosario Castellanos (1925-1974) neste confrontacionista e existencialista poema “El Otro” (O Outro), que segue abaixo. Conhecida por sua literatura feminista e social, Castellanos também escreveu intensamente sobre a solidão, a vida e a morte, temas que fizeram parte de sua atribulada vida – desde que sentiu a rejeição dos pais e o suicídio do seu irmão, se refugiando na literatura e ingressando Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional do México, aos 19 anos.

“O OUTRO”

Por que clamas aos deuses, às estrelas,
às espumas de ocultos oceanos
ou às sementes de jardins longínquos,
se o que te fere é a tua própria vida,
se o que crava as garras nas tuas entranhas
é o nascer de cada novo dia
e a noite que cai,
retorcida e assassinada?
Se o que sentes é a dor em outro alguém,
que não conheces mas que está sempre
presente
e é vítima, inimigo, amor,
e tudo aquilo de que
precisas para alcançar a totalidade?
Não te entregues ao poder das trevas
nem esvazies de um só trago a taça do prazer.
Olha à tua volta: existe outro alguém,
sempre um outro alguém.
O que ele respira é a tua asfixia,
o que ele come á a tua fome.
Morto, levará consigo a metade mais pura
da tua própria morte.
~ “El Otro”, de Rosario Castellanos

Original, em espanhol:

¿Por qué decir nombres de dioses, astros
espumas de un océano invisible,
polen de los jardines más remotos?
Si nos duele la vida, si cada día llega
desgarrando la entraña, si cada noche cae
convulsa, asesinada.
Si nos duele el dolor en alguien, en un hombre
al que no conocemos, pero está
presente a todas horas y es la víctima
y el enemigo y el amor y todo
lo que nos falta para ser enteros.
Nunca digas que es tuya la tiniebla,
no te bebas de un sorbo la alegría.
Mira a tu alrededor: hay otro, siempre hay otro.
Lo que él respira es lo que a ti te asfixia,
lo que come es tu hambre.
Muere con la mitad más pura de tu muerte.
~ “El Otro”, de Rosario Castellanos

Ouça na voz de Rosario Castellanos:

Assuntos desse conteúdo
, ,
Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

2 Comentários

  • O poema é um grito de dor, uma profunda angústia, que faz vibrar as entranhas de quem o escreve e de quem o ouve. Mas, nesse desabafo contra a injustiça da vida há o encontro de sua alma com o outro, que na verdade é o que nos faz inteiros. É a ambivalência que retrata a unidade na universalidade.Não há vida sem morte…Nem alegria sem dor.

  • Nando,

    Em uma palestra o Sai Baba recomenda que se permaneça na religião em que se nasceu, que procure nela primeiro o que se busca (ou palavras semelhantes).

    A tradução está ótima, porém qdo se lê no original (ou se ouve – #eu gostaria de ouvi-lo em voz mais grave, masculina#) esse poema sombrio e belo, cresce e, pela sua apresentação, te agradeço.

    Bia sorte, Norma

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *