O relato do dia em que Gandhi diz ter experimentado ouvir a “voz de Deus”, nas palavras do próprio Gandhi

“As gerações por vir terão dificuldade em acreditar que um homem como este realmente existiu e caminhou sobre a Terra.”
~ Albert Einstein

Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948), um dos maiores responsáveis pelo movimento de independência da Índia e defensor do Sathyagraha, o princípio da verdade que sustenta o movimento do protesto não-violento*, teve uma experiência aos 64 anos de idade que ele mesmo definiu como ouvir “a verdadeira voz de Deus“. O relato está numa entrevista que ele concedeu a John R. Mott, Prêmio Nobel da Paz (1946), em dezembro de 1938, cinco anos após um jejum de 21 dias que ele realizou em protesto à opressão britânica na Índia. Indiscutível missionário de idéias e ações que mudaram o mundo e inspiraram outros grandes revolucionários como Martin Luther King Jr, Gandhi nasceu filho de uma mãe Vaishnava (devotos de Vishnu) e seguiu a tradição hindu até certa idade, mas trabalhou igualmente por hindus e muçulmanos na paz e igualdade entre os povos, e ele mesmo dizia que o que queria era “uma paz real baseada na liberdade e igualdade de todas as raças e nações“.

O assunto é polêmico, mas o objetivo de trazer esse relato aqui não é o de criar uma discussão teológica (ou ateísta), e sim o de conhecer o testemunho de uma pessoa séria, marcante, uma uma das maiores personalidades que passou pela história recente, com influência política determinante em nível global e inspiração para diversos grandes líderes posteriores. Gandhi era um fervoroso devoto a Deus, e também era muito sensato e inteligente. Dizia que nunca havia visto ou conhecido Deus, mas que tinha mais certeza da existência dele do que de duas pessoas sentadas conversando.

Na noite do dia 28 de abril de 1933, Gandhi teve a experiência de ouvir uma voz que considerava tão real e certa que relatou da seguinte maneira:

Mott: Quando você teve a manifestação indubitável da manifestação de Deus na sua vida e experiência?

Gandhi: Tenho visto e acreditado que Deus nunca aparece pra você em pessoa, mas em ação que só pode dar conta da sua liberação na sua hora mais negra.

Mott: Você quer dizer que algumas coisas acontecem que não poderia acontecer sem Deus?

Gandhi: Sim. Elas acontecem de repente e sem aviso.

Uma experiência se sobressai notavelmente na minha memória. Ela está relacionada ao meu jejum de 21 dias para a remoção da “intocabilidade”. Perto da meia-noite, alguma coisa me acorda de repente e uma voz, dentro ou fora de mim, não consigo dizer, sussura “Você deve entrar em jejum”. “Quantos dias?”, eu pergunto. “Vinte-e-um dias”. “Quando começa?”, pergunto. “Você começa amanhã”. Fui dormir tranquilamente depois de tomar a decisão. Não contei nada para meus colegas até depois da minha oração matinal do dia seguinte. Coloquei nas mãos deles um pedaço de papel anunciando minha decisão e pedindo-lhes que não argumentassem pois a decisão era irrevogável. Bem, os médicos acharam que eu não sobreviveria ao jejum. Mas algo dentro de mim disse que eu sobreviveria e que eu deveria ir em frente. Esse tipo de experiência nunca mais aconteceu na minha vida. A primeira pergunta que intriga muitos é sobre a voz de Deus. O que era? O que eu ouvi? Havia alguma pessoa que eu via? Se não, como era a voz dita a mim? Essas são perguntas pertinentes. Eu não vi forma nenhuma. Nunca pedi por isso, porque sempre acreditei num Deus sem forma. Mas o que eu realmente ouvi foi uma voz longe e ao mesmo tempo perto. Era tão inequívoca quanto a voz humana, estava definitivamente falando pra mim, e era irresistível. Eu não estava sonhando naquela hora que ouvi a voz. O ouvir da voz foi precedido por uma luta terrível dentro de mim. Repentinamente a voz veio a mim. Ouvi, me certifiquei que era a voz e a luta parou. Eu estava calmo. A determinação foi criada de acordo, a data e a hora do jejum fixados. A alegria veio a mim. Me senti revitalizado. Eu poderia dar alguma outra evidência de que era verdadeiramente uma voz que ouvi e não o eco da minha própria imaginação aquecida? Não tenho nenhuma evidência extra para convencer os céticos. Ele (ou ela) é livre para dizer que foi uma auto-ilusão. Poderia ter sido. Não posso oferecer nenhuma prova do contrário. Mas eu posso dizer isso: que o veredito unânime do mundo inteiro contra mim não poderia abalar minha certeza de que o que eu ouvi era a verdadeira Voz de Deus”.

(*) editado, ver comentários.

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