Novas visões “bio-sociais” sobre a capacidade de auto-transcendência do ser humano, no TED [V͍DEO]

“Então aqui está a pergunta de um milhão de dólares para os cientistas sociais como eu: A escada é uma característica do nosso processo evolutivo? É um produto da seleção natural, como nossas mãos? Ou é um defeito, um erro do sistema — estas coisas de religião são apenas algo que acontece quando os fios se cruzam no cérebro – Jill tem um derrame e ela tem essa experiência religiosa, isso é apenas um erro?”
~ Jonathan Haidt

A “escada” a que o professor de psicologia da Universidade de Virginia, Jonathan Haidt, fala no parágrafo acima, parte da palestra de 18min do TED, é uma experiência de êxtase ou auto-transcendência, “um estado alterado de consciência” que seria uma capacidade humana de viver superior, elevada ou “divina”. E que seria, de alguma forma, uma característica das mais fortes que o ser humano tem para sua evolução. A palestra é uma tentativa de compreender esses estados do ponto de vista socio-biológico, na mesma direção que aponta o novo livro do biólogo de Harvard E. O. Wilson, “The Social Conquest of Earth” (que falamos aqui semana passada, no post “A vantagem evolutiva das formigas: 4 olhares recentes sobre o “eusocialidade” de espécies dominantes”).

Ou seja, o argumento principal de Jonathan Haidt parece ser o de que a auto-transcedência corrobora e ajuda de maneira fundamental a evolução humana, e que ela opera via “seleção de grupo“, e não seleção individual ou de parentesco, que é (era) a predominante até agora. O que sublinha a questão mais polêmica da evolução da atualidade: o papel do altruísmo. Para Haidt, assim como para E. O. Wilson, o comportamento altruísta e a evolução social de cada indivíduo trabalhando para o grupo é o que faz de comunidades como a das formigas, das abelhas e a nossa, humana, as mais dominantes do planeta neste ponto da evolução. O que Haidt adiciona é que a auto-transcedência é um comportamento grupal e que é parte desse nosso avanço humano. Apesar de criticar nossa sociedade, que é “construída para satisfazer o eu profano”, que, segundo ele, é o ser que não se transcende, ele diz que há uma direção inequívoca para o ser humano transcender.

“Um grande desafio da vida moderna é encontrar a escada no meio de tanta confusão e então fazer algo bom e nobre uma vez que você atinge o topo. Eu vejo este desejo nos meus alunos na Universidade de Virginia. Todos querem encontrar uma causa ou uma vocação a que possam se entregar. Eles todos buscam a sua escada. E isso me dá esperança porque as pessoas não são puramente egoístas.”
~ Jonathan Haidt

Além de E. O. Wilson, Jonathan invoca outros grandes nomes ocidentais para amarrar sua tese, como o sociólogo francês Emile Durkheim, o psicólogo americano William James e obviamente o naturalista britânico Charles Darwin. Mas estranhamente não cita nenhuma fonte oriental, nenhum dos grandes estudiosos ou nomes considerados “auto-realizados” (exemplos do Yoga e do Budismo não faltam, como Dogen Zenji e Ramana Maharshi), os considerados sábios na arte da “auto-transcendência” da Índia, onde provavelmente essa expressão (auto-transcedência) surgiu e foi desenvolvida para que chegasse até ele próprio, Jonathan Haidt.

Nos mais de 400 comentários que estão na página da palestra no TED (que, apesar de tão numerosos, valem muito a pena serem lidos, pois trazem argumentos e adições importantes), questionei essa ausência no discurso. Entre as indagações: “Como pode um pesquisador não mencionar qualquer uma das escolas de conhecimento orientais que tem estudado a auto-transcendência por milênios?“, e outra ainda mais importante: “Como pode ele igualar o profundo conhecimento de auto-conhecimento oriental com religiões dogmáticas ocidentais?” (usando expressões pejorativas como “essas coisas de religião”).

Apesar disso, a palestra é muito interessante e mexe em várias outras questões importantes sobre nossa evolução. O tom é de entusiasmo sobre o altruísmo humano, algo que mexe com nossas esperanças sobre o sentido da vida e nossos destinos. Jonathan parece ser um entusiasta de respostas otimistas, ainda que apenas pelo enfoque biológico: “Somos abelhas. Escapamos da colmeia durante o Iluminismo. Nós demolimos as antigas instituições e trouxemos liberdade para os oprimidos”.

Segue o ví­deo, com legendas em português:

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Compartilhado por Naiara Signorelli.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

2 Comentários

  • Interessantíssimo e oportuno (seguindo o da “Formigas”). Grata pela excelência.
    (Ainda esperando um momento melhor p/ler todos os comentários)

    http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/jonathan_haidt_humanity_s_stairway_to_self_transcendence.html

    Tomei a liberdade de reproduzir trechos de 2 comments, visto espelhar o meu pensamento, também.
    Quanto a pergunta colocada pelo Administrador do Dharmalog, gostaria muito de ver a reposta do Palestrante…
    (Boas palestras “puxam” grandes comentários, por vezes melhores questionamentos que a própria).
    Boa Sorte!

    P.S.: Nando, _/\_ (Gasshô)
    Norma

    “Sobre a auto-transcendência, por si só, eu me pergunto por que nos países do Leste, uma grande quantidade de pessoas que tiveram grandes experiências “escada” (na verdade, que apresentaram as maiores delas), tinham-las sozinhos, ou em um mosteiro, com aparentemente nenhum grande papel na seletiva evolução do grupo de seu povo. Como isso se relaciona com a sobrevivência de seus grupos? Por que eles têm essas experiências, o que as motiva? E talvez mais importante, por que não foi apenas a experiência por si só, mas como eles retornaram e viveram de forma diferenciada para sempre?
    Nando Pereira

    “Você pode ser altruísta, sem qualquer tipo de misticismo, ou qualquer tipo de crença religiosa. Os humanistas seculares pode vir a valorizar o bem-estar de todas as outras pessoas sem buscar qualquer tipo de transe, de meditação, ou outro “estado alterado de consciência”, sem acreditar em qualquer outra vida ou algo “sagrado” ou ser “espiritual”, mesmo sem uma mentalidade tribal . Tudo que temos a fazer é olhar para outras pessoas que sofrem, e então priorizarmos o seu bem-estar. Podemos ver que isso é especial, sem que julguemos ‘sagrado’. ”
    Jay Quigley

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