Documentário independente “Estou bem, obrigado” registra testemunhos do fim do “sonho americano” [VÍDEO]

I’m Fine, Thanks (Estou Bem, Obrigado) é um novo documentário sobre a complacência e uma coletânea de histórias sobre a vida, as escolhas que fazemos e os caminhos que decidimos seguir”, como diz a CrankTankStudios, produtora que está em campanha no Kickstarter para conseguir fundos para a pós-produção e o lançamento do filme. Trazendo mais de 60 entrevistas e algumas com profissionais especializados em mudança de vida, como Jonathan Mead, Scott Dinsmore e Danielle LaPorte, I’m Fine Thanks aparece no rastro de uma das maiores crises americanas das últimas décadas e critica diretamente o que identifica como o “sonho americano” de ideais de prosperidade e sucesso para todos, sob a mesma conhecida fórmula, mostrando exemplos de vários cidadãos americanos que a seguiram e hoje estão infelizes.

O documentário não mostra pessoas em dificuldade financeira, mas pessoas infelizes por terem seguido um modelos de sucesso padronizado, mesmo que tenham feito muito dinheiro no trajeto. Guardadas as proporções, este documentário tem um foco parecido com o do grande filme “Clube da Luta” (“Fight Club”, David Fincher, 1999), que discursa contra a imagem que a mídia produzia (e ainda produz) de um sucesso “garantido”, pasteurizado e falso, que está bem descrito no seguinte discurso do protagonista:

“Vejo tanto potencial, e vejo desperdício. Deus do céu, uma geração inteira botando gasolina, servindo mesas; escravos com colares brancos. A propaganda nos botou pra correr atrás de carros e roupas, de empregos funcionais que nós odiamos para que possamos comprar as merdas que não precisamos. Nós somos os filhos do meio da história. Sem propósito ou lugar. Não temos uma Grande Guerra. Nem uma Grande Depressão. Nossa Grande Guerra é uma guerra espiritual… nossa Grande Depressão é nossas vidas. Todos fomos criados pela televisão que nos fazia acreditar que seríamos todos milionários, deuses do cinema, e estrelas do rock. Mas não seremos. E estamos lentamente nos tocando disso. E estamos muito, muito irritados”.
~ Tyler Durden, no filme “Clube da Luta” (David Fincher, 1999)

O trailer traduzido e legendado em português segue abaixo. Para ativar as legendas em português, clique em “Select Language” no box embaixo do ví­deo (caso o ví­deo não apareça, recarregue esta página ou use este link alternativo).

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Obs.: O Dharmalog é um “backer” deste documentário no Kickstarter.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

9 Comentários

  • Clap, Clap, Clap:
    1) Pelo suporte dado ao CrankTankStudios;
    2) Pela escolha e transcrição do monólogo do Fight Club;

    “HOW ARE YOU”?
    ______________

    Broken.Useless.Alone.Clueless.Confused. Betrayed.Fragile.On the verge of tears. Depressed.Anxious. About to break down. Ready to give up. Pathetic.Annoying. Distant.

    FINE !!!
    ________

    Lonely.Bitter. Heartbroken.Rejected.Crushed.I feel like I’m going to just fall apart at any moment. Empty. Defeated. Never good enough.

    (Já recebi um bilhetinho parecido com o acima e fiquei muito tocada. Acho que o filme vai ajudar)
    Grata e Fique Bem!:)

  • De certa forma esse tipo de documentário vende outro sonho, agora não mais apenas americano, mas global, o de que você pode e deve escrever o seu destino rumo a felicidade. E vende esse sonho de uma forma muito glamurosa e mesmo cruel. É como se dissesse: você não é feliz? A culpa é sua por escolher um caminho mais seguro ao invés de uma vida de “aventura”.
    Obviamente existe uma verdade vital nessa busca que é: se voce não souber o que o te faz feliz e se não for atrás disso não será. Contudo, as chances podem ser bem reduzidas, os obstáculos podem ser imensos (economicos, fisicos, sociais etc) e, na maioria das vezes, essa busca terminará em frustração e dor. Haja coragem, determinação e resiliência. Não é para qualquer um.
    Por outro lado, ter uma casa boa com coisas boas e usufruir disso numa boa não é o pecado em si e pode ser um grande prazer existencial com o foco adequado.
    A questão é: você sabe o que te faz feliz? Está pronto para apostar e arcar com o resultado das suas escolhas?
    Então, independente do sonho “just do it!” ;)
    PS: A propaganda não cria a ilusão, essa já existe em cada um de nós, ela apenas a vende bem bonita.
    Abs!

    • Não sei se o documentário pretende mostrar isso, Marcelo, mas concordo que há um sonho em background querendo ser vendido, esse de que a vida são saltos de bung jump, riscos sem responsabilidade familiar ou financeira e aventuras hedonistas sem compromisso com o outro. O que eu percebi nesse trailer é uma tentativa de mostrar a frustração de algumas pessoas por terem seguido uma fórmula que não era delas, nunca foi, e que se chama “sonho americano”. Que está no centro dos scripts de muitos progressos que não visam todos nós, mas aquele 1%.

      Essa discussão sobre a “propaganda” é difícil, porque ela envolve a mídia, nosso modo de livre capital que faz com que o entretenimento ocupe o objetivo central das pessoas (principalmente quando a educação e o trabalho um lugar massante) e uma… complacência (!) de todos nós assistindo isso. “Estamos lentamente nos tocando disso”. Não é que haja um culpado, e que ela seja a propaganda, talvez ela seja apenas um abutre. Nós temos que dar uma arrumada na casa. :)

      Um abraço grande,
      Namastê.

  • Do “Clube do Nadismo”?
    (nada melhor do que não fazer nada, da R.Lee). Se for: \o/ Oba!
    Gostei da tua menção de:
    “A questão é: você sabe o que te faz feliz? Está pronto para apostar e arcar com o resultado das suas escolhas?”
    Essa é a conversa interna mais importante a se ter, no contexto: É isso realmente que vc quer? Você se banca? (e lembrar-se que não há garantias expressas do seu sucesso…)

    Fique bem.

  • Em sua origem, “sonho americano” não tem relação com o consumismo a ele atribuído. A ideia é que seu sucesso na vida – qual seja a forma como você medir ou definir isso – não está subordinado aos desejos, vontades ou ações de seus governantes, líderes religiosos ou militares. Isto é, você não deveria ter “sucesso” apenas por que vota ou milita por determinado partido, e nenhum “rei” ou “presidente” pode reivindicar participação ou responsabilidade em seu sucesso individual. Você chega aonde chega graças aos seus esforços, e não porque é patrocinado por alguma empresa, universidade, religião ou organização. Se você trabalhou como um condenado e se cercou de bens e serviços com a ilusão de que isso traria felicidade, lamento: não é culpa do “sonho americano”.

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