Porque a era dos gurus está encerrada: Charles Eisenstein e a gênese dos novos seres humanos conectados [ARTIGO]

A “Terra Amada” do filósofo e escritor americano Charles Eisenstein está de volta neste artigo, como esteve no vídeo onde ele aparece falando sobre o fim da infância na Terra, no post “A Ascenção da Humanidade: a Crise Sistemática é o Fim da Infância Humana na Terra” (18/04/12). O conceito agora serve à tese dele de que a era dos gurus está acabada, sejam os conhecidos gurus espirituais ou quaisquer outras líderes de ensinamentos ou referência de conhecimento a serem seguidos, seja na filosofia, política, etc. No artigo “Porque a Era dos Gurus está Encerrada” (Why the Age of the Guru is Over), publicado no site Reality Sandwich e traduzido na íntegra no Dharmalog sob licença, Eisenstein faz uma breve gênese do mundo melhor vislumbrado nos Anos 60 e a percepção de que ele está finalmente sendo implantado no momento atual de crise global.

Antes de qualquer precipitação, é possível notar, pelo artigo de Einsentein, que o proposto “fim da era dos gurus” não seria uma rejeição dos ensinamentos nem da importância vital de Buddhas e Lamas e Rishis e Swamis e Rinpoches, nem de suas ciências e legados em nossos caminhos (tampouco da própria existência deles). O fim seria apenas de uma era centrada neles, onde os seres humanos partiam em busca dos seus como maneira de se emancipar do sofrimento ou da ignorância, sem mais preocupações decorrentes. Hoje, segundo Eisenstein, não haveria salvação sem conexão, sem uma mudança verdadeira no paradigma e na relação com a natureza e com todos os outros seres. A emancipação ou liberação ou iluminação seria, nesse sentido, um trabalho coletivo. Não sei até que ponto as realidades são excludentes, mas a visão exposta no artigo é interessante, assim como a outra tese já publicada aqui do mesmo Eisenstein, sobre a mudança de idade da humanidade no planeta.

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“Porque a Era do Guru está Encerrada” (Why the Age of the Guru is Over)
Por Charles Eisenstein

Já há algumas décadas, parece, a humanidade tem estado no limite de uma ruptura na consciência coletiva. Talvez tenham sido os Hippies nos Anos 60 que tenha visto isso pela primeira vez. Para eles, era claro que a revolução da consciência iria varrer tudo que tinha existido antes, que dentro de alguns anos tais instituições como governo, dinheiro, casamento e escola iriam se tornar obsoletas. Quarenta anos depois, a visão deles não aconteceu e, ao menos superficialmente, as instituições que definem nossa civilização estão mais poderosas, mais abrangentes que nunca. Apesar disso, para muitos de nós por algum tempo, e para a maioria de nós ao menos de vez em quando, aquela ruptura na consciência que os Hippies previram parece ainda ser iminente.

Talvez pareça iminente porque, naquelas experiências de pico quando conhecemos nosso verdadeiro potencial como humanidade, a verdadeira vestidão das nossas mentes, e amor que era o estado natural de existência, parecia tão óbvio que tínhamos retornado ao nosso direito de nascença e reconquistado nosso estado original. Poderia ser uma experiência de quase-morte que nos traz aqui, uma experiência psicodélica, um momento na natureza, dar à luz, fazer amor; poderia ser uma experiência religiosa, ou poderia ter vindo através de um sonho, uma música, ou da meditação; pode vir também através de trabalho psicológico, um seminário transformador, ou mesmo um livro. Geralmente, porém, o pico não dura.

Tive muitas dessas experiências onde eu pensei, “Nada nunca será o mesmo novamente”, mas depois de alguns dias ou semanas, eu notava que estava me debatendo para manter o estado realizado em que eu tinha estado. O que era antes natural e sem esforço e auto-evidente se tornava alvo de lembretes e práticas. O “antigo normal” se aproximava, até que eu estivesse de volta onde tinha começado, e o estado que eu havia sentido tão verdadeiramente e claramente se tornava uma reles memória. Posso tentar repetir a experiência, mas como uma droga, o segundo pico é um pouco menos intenso que o primeiro, e o retorno ao chão mais rápido. Eventualmente duvidei: talvez a experiência era uma droga, uma excursão além da realidade, e não, como eu tinha acreditado, algo mais real do que o mundo que eu tinha vindo a aceitar. Para algunas pessoas, aquela voz cresce de volume até que se torna um tumulto derrotador de desesperado. Antes da experiência, pelo menos havia esperança, mas tendo entrado no paraíso e sido ejetado, o que havia agora para viver?

Então foi assim em um nível cultural, que depois das expectativas iluminadas e exuberantes dos Anos 60, muito da contracultura virou hedonismo e consumo da Década do Eu. Que sentimento de traição sentimos, conforme a revolução psicodélica deu lugar à Geurra às Drogas, conforme o Ato do Ar Limpo deu lugar à Ronald Reagan e James Watt (“As árvores poluem mais do que as pessoas”.)

Felizmente, seja num nível pessoa ou coletivo, o desespero nunca pode estar completo, porque a brasa da experiência do acordar vive eternamente em nossos corações. Por mais profundo que o desespero a que possamos descer, carregamos o conheço em primeira mão escrito em nossas células que há mais do que Apenas Isto. Mesmo que não saibamos retornar aquele mundo mais bonito, sabemos que ele existe. Esse conhecimento vive independentemente de crenças, por baixo das correntes da razão e dúvida e impenetráveis. Não podemos cultivar ou praticar aquele conhecimento, mas ele cultiva e nos pratica. A primeira coisa que ele faz é nos prevenir de participar de todo coração no velho normal. Podemos fazer o melhor para participar do programa, podemos ir com o fluxo, mas lá no fundo sabemos que não é a coisa real. O esforço para direcionar a energia da vida a objetivos indignos do nosso conhecimento é exaustivo. Eventualmente, nossas reservas de saúde e sorte se esgotam, nós entramos em um estado de crise. Quer seja a saúde, o relacionamento, o dinheiro, ou relacionado ao trabalho, a crise é um nascimento a partir do velho normal. Não podemos voltar atrás, mas também não sabemos como ir em frente. Este é um estado especial, um limiar entre mundos. Muitos de nós estão lá neste momento, individualmente; o corpo humano coletivo está se aproximando dele também.

O propósito deste ensaio é descrever o paradigma do cuidado mútuo que pode nos transportar através deste limiar entre dois mundos.

Nós vislumbramos um mundo mais bonito nos Anos 60, mas o normal antigo ainda não estava acabado. A estória ainda não tinha sido contada em sua totalidade. Assim, não podíamos acender à nova realidade; a tração do antigo era forte demais. Na verdade, haviam muitas exceções individuais; até hoje existem hippies não-regenerados vivendo nos interstícios da nossa realidade, tão invisíveis a nos quando os imortais lendários Taoístas, segurando o padrão do próximo mundo até que seu tempo esteja pronto pra ele. Mas para a maioria, depois dos Anos 60 as pessoas retornaram ao mundo que haviam deixado pra trás, e o seguiram até novos extremos.

Quarenta anos depois, aquele mundo ainda está se caindo aos pedaços em uma taxa acelerada. As estórias que suportavam nossa civilização estão desmoronando. Duas são principais: a estória do ser individual, e a estória da pessoas. A primeira é a do ser distinto e separado, um mote Cartesiano da consciência olhando um universo objetivo de massas sem almas e forças impessoais e deterministas. Na biologia, o ser separado se manifesta conforme o paradigma do gene egoísta busca maximizar seu interesse reprodutivo; na economia, é o homo economicus, que busca maximizar o interesse racional medido pelo dinheiro. Na psicologia, é o ego encapsulado na pele; na religião, a alma presa na carne mas separada dela. Esse ser está naturalmente em oposição a todos os outros seres, cujos interesses são indiferentes dele ou estão em desacordo com os seus. Os ensinamentos espirituais baseados nessa história do ser, então, nos dizem que devemos tentar mais duramente nos levantar sobre a natureza, a conquistar nossas motivações biológicas e econômicas para maximizar nosso interesse pessoa acima dos outros seres.

Externalizada, essa guerra contra o ser se manifesta como a segunda estória que define a civilização, a estória das pessoas que chamo de “ascenção”, que diz que o destino da humanidade é se superar e transcender a natureza. Ela complementa perfeitamente a estória do ser, elevando o mental sobre o físico, o ideal sobre o concreto, o espírito sobre o corpo.

Ao descrever esses mitos, uso a palavra “estória” em um sentido especial, como uma narrativa inconsciente que cria sentido pro mundo, que associa papéis e funções aos seres humanos, que explica a natureza da vida, do mundo, e de propósito para a existência humana, e que coordena a atividade humana. As estórias tem um começo, um meio e um fim. Estamos nos aproximando do fim da nossa, das estórias que nossa civilização foi construída. Se algumas dessas estórias não são verdadeiras pra você, você já não se sente mais como um participante integral dessa civilização.

Elas estão se tornando não-verdadeiras para mais e mais de nós, conforme o mundo que foi construído sobre elas vai decaindo. Como podemos acreditar na conquista da natureza quando nossas ações são a causa da ameaça ao fundamento ecológico da civilização? Como podemos continuar acreditando que o triunfo final sobre as doenças está na próxima esquina, ou que uma era de prazer, ou de férias espaciais, ou de uma sociedade perfeitamente justa, se nós estendemos a dimensão do controle só um pouco além? E como podemos continuar acreditando no paraíso de um ser separado, independente de tudo, pertencente a ninguém, financeiramente seguro, quando estamos vendo em primeira mão a alienação, o desespero, a miséria para a comunidade que faz daquele paraíso um inferno? Quando a depressão, o vício, o suicídio e a decadência da família atingem até mesmo os vencedores da guerra de todos contra todos?

Seja num nível pessoal ou coletivo, estamos descobrindo que as histórias de separação não são verdadeiras. O que fazemos ao outro inescapavelmente nos visita de volta de alguma maneira. Conforme isso vai se tornando cada vez mais óbvio, uma nova história do eu e das pessoas se torna acessível para nós.

A nova história das pessoas é uma de parceria co-criativa com a “Terra Amada”. Essas histórias soam verdadeiras em nossos corações, vemo-las no horizonte, mas ainda não vivemos nessas histórias. É difícil fazer isso quando as instituições e hábitos do velho mundo ainda nos cercam.

Como podemos nos estabelecer completamente em uma maneira radicamente diferente de pensar, se relacionar e ser? Não se engane: essa revolução vai muito além da aceitação de uma idéia. Saber e incorporar como uma realidade de interexistência na experiência, vívida e ativa, para viver em um espírito de presente como é apropriado em todo relacionamento, para confiar completamente na própria divindade e na dos outros, para saber em cada fibra do seu ser que “Eu Sou Você”, e para navegar nesse conhecimento com limites apropriados, isso tudo constitui uma revolução fundamental no ser humano. Além disso, embora tenhamos entrado em um novo território, nos faltam modelos e mapas para viver nele. Precisamos de ajuda, precisamos de ensinamos sagrados. Mas quem serão nossos professores, quando tudo é novo?

Na verdade, nós herdamos ensinamentos e modelos para o novo mundo, de visionários que viram através das histórias de separação séculos atrás, e de tribos que evitaram a civilização por tempo suficiente para transmitirem seu conhecimento a nós. Muito desse conhecimento tem sido distorcido pelas lentes da separação, mas conforme as novas histórias passam a ganhar foco, podemos discernir sua intenção original. por exemplo, a formulação comum da Regra de Ouro, “Faça aos outros o que gostaria que fizessem a você”, é uma injunção moral que ouvimos de uma outra versão deste ditado, nascido da separação de espírito e matéria: “Tente ser gentil com mais determinação”. É um padrão de comportamento, algo que devemos sobrepor ao nosso egoísmo natural para conquistar. Da perspectiva de um ser conectado, entretanto, a Regra de Ouro muda de forma para se tornar não uma regra mas um lembrete: “Conforme você faz aos outros, assim também você faz a você mesmo”. A intenção do seu articulador original é recomposta.

De maneira semelhante, o Voto do Bodisatva, “Não entrarei no Nirvana até que todos os seres sencientes tiverem entrado no Nirvana”, nos soa como o auto-sacrifício mais definitivo, um voto heróico e magnânimo além do alcance das pessoas ordinárias. Para o ser conectado de “Eu sou Você”, entretanto, é uma mera articulação distorcida de um fato simples que poderíamos chamar de Realização Bodisatva: “É impossível entrar no Nirvana sozinho. Se qualquer ser senciente for deixado pra trás, então parte de mim é deixada pra trás”. Só alguém sob a ilusão que é uma alma separada e distinta imaginaria algo diferente.

Sendo prático, para viver num estado mais iluminado nós devemos estar lá por um comunhão de novos hábitos, novas maneiras de vermos uns aos outros, e novas crenças na prática que redefina o normal.

Em outras palavras, na era do ser conectado, nosso guru não pode ser nenhum além do coletivo, da comunidade – como Thich Nhat Hanh diz, “O próximo Buda será uma sangha”. Por comunidade, não digo uma massa amofra “somos todos um”, sem estrutura, e sim uma matriz de seres humanos unidos em uma história comum de pessoas e de ser. Alinhadas com essas histórias definidas, esta comunidade pode nos dar suporte em uma visão do que estamos nos tornando.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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