Entendendo como tudo é maior do que si mesmo em 3 sentenças de Fritjof Capra

No mês passado, o físico austríaco Fritjof Capra (“O Tao da Física”, “Pertencendo ao Universo” e “Conexões Ocultas”) veio ao Brasil falar de Ecologia e Sustentabilidade, no Rio de Janeiro, mas nem todo mundo viu, e muita gente ainda não conhece o admirável trabalho e capacidade de explicar o novo mundo deste missionário do pensamento sistêmico e da educação ecológica. Mesmo quem conhece, muitas vezes ainda age sob o paradigma cartesiano e newtoniano, que não coloca a interdependência de tudo que existe no centro de suas próprias razões de existirem. “Um cartesiano olharia para uma árvore e a dissecaria, mas aí ele jamais entenderia a natureza da árvore”, diz um dos trechos abaixo, do filme “O Ponto de Mutação“. “Se os políticos tentarem entender a árvore como algo isolado, ficariam intrigados com os milhões de frutos que produz na vida, pois só uma ou duas árvores resultarão deles. Mas se virem a árvore como um membro de um sistema vivo maior, tal abundância de frutos fará sentido, pois centenas de animais e aves sobreviverão graças a eles”.

Seguem três trechos de livros de Fritjof Capra, nenhum deles especialmente novo, mas provavelmente ainda inéditos para muitos de nossos colegas de espécie.

“Há uma teoria surgindo agora que coloca todas as idéias ecológicas de que falamos numa estrutura científica coesa e coerente. Nós a chamamos de Teoria dos Sistemas, dos Sistemas Vivos. Todos os seres vivos, bem como os sistemas sociais e os ecossistemas. Essa teoria ajudaria muito na compreensão das ciências que lidam com a vida. Isto é ciência, e muitos cientistas, incluindo alguns prêmios Nobel, têm trabalhado nestas idéias. Isto é ciência , mas de um tipo novo. Em vez de picotar as coisas, ela olha para os sistemas vivos como um todo. Um cartesiano olharia para uma árvore e a dissecaria, mas aí ele jamais entenderia a natureza da árvore. Um pensador de sistemas veria as trocas sazonais entre a árvore e a terra, entre a terra e o céu. Ele veria o ciclo anual que é como uma gigantesca respiração que a Terra realiza com suas florestas, dando-nos o oxigênio, o sopro da vida, ligando a Terra ao céu e nós ao Universo. Um pensador de sistemas veria a vida da árvore somente em relação à vida de toda floresta. Ele veria a árvore como o habitat de pássaros, o lar de insetos. Já se vocês, políticos, tentarem entender a árvore como algo isolado, ficariam intrigados com os milhões de frutos que produz na vida, pois só uma ou duas árvores resultarão deles. Mas se vocês virem a árvore como um membro de um sistema vivo maior, tal abundância de frutos fará sentido, pois centenas de animais e aves sobreviverão graças a eles. A árvore também não sobrevive sozinha. Para tirar água do solo, ela precisa dos fungos que crescem na raiz. O fungo precisa da raiz e a raiz do fungo. Se um morrer, o outro morre também. Há milhões de relações como esta no mundo, cada uma envolvendo uma interdependência. A teoria dos sistemas reconhece esta teia de relações, como a essência de todas as coisas vivas. Só um desinformado chamaria tal noção de ingênua ou romântica, porque a dependência comum a todos nós é um fato científico.”
~ Fritjof Capra, adaptado do “Ponto de Mutação” (o filme)

“Misturando água e sais minerais, vindos de baixo, com luz solar e CO2, vindos de cima, as plantas verdes ligam a Terra e o céu. Tendemos a acreditar que as plantas crescem do solo, mas, na verdade, a maior parte da sua substância provém do ar. A maior parte da celulose e dos outros compostos orgânicos produzidos por meio da fotossíntese consiste em pesados átomos de carbono e de oxigênio, que as plantas tiram
diretamente do ar sob a forma de CO2. Assim, o peso de uma tora de madeira provém quase que totalmente do ar. Quando queimamos lenha numa lareira, o oxigênio e o carbono combinam-se novamente em CO2, e na luz e no calor do fogo recuperamos parte da energia solar que fora utilizada na formação da madeira.”
~ Fritjof Capra, “A Teia da Vida” (p.134)

“Enunciada de maneira simples, a hipótese [de Gaia] afirma que a superfície da Terra, que sempre temos considerado o meio ambiente da vida, é na verdade parte da vida. A manta de ar — a troposfera — deveria ser considerada um sistema circulatório, produzido e sustentado pela vida. … Quando os cientistas nos dizem que a vida se adapta a um meio ambiente essencialmente passivo de química, física e rochas, eles perpetuam uma visão seriamente distorcida. A vida, efetivamente, fabrica e modela e muda o meio ambiente ao qual se adapta. Em seguida, esse “meio ambiente” realimenta a vida que está mudando e atuando e crescendo nele. Há interações cíclicas constantes.”
~ Lynn Margulis, “A Teia da Vida” (p.83), de Fritjof Capra

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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