Truques da mente: a noção de tempo do cérebro e a busca pela compreensão da realidade como ela é

Semana passada recebi um artigo intitulado “Mude e Marque“, de Airton Luiz Mendonça, que chama atenção para os mecanismos automáticos do cérebro que nos iludem a noção de realidade e nos infringem noções de tédio, pressa, demora e rotina. Enfim, tempo. Acelerado ou retardado. A fundamentação é curiosa, e tenta dar exemplos de como o cérebro entende e otimiza a noção do tempo, argumentando, por exemplo, que “se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem mobília, portas, janelas e sem relógio, você começará a perder a noção do tempo”. Depois de expor esses problemas, o autor sugere uma série de ações para tentar forçar o cérebro a ver diferente, a se cercar de mudanças mais visíveis e a entender que cada momento é novo. Apesar de considerar as sugestões boas e divertidas, são basicamente manobras “de fora para dentro“. E, como diz Shunryu Suzuki em seu livro “Mente Zen, Mente de Principiante”, o essencial é manter a mente em seu estado original, pois na “mente de principiante há muitas possibilidades, na mente do expert há poucas“.

Um trecho inicial do artigo diz:

O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos. Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem relógio… Você começará a perder a noção do tempo. Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea.

Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol. Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar: Nosso cérebro é extremamente otimizado. Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho. Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia. Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade. Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia e, portanto, quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos recursos para compreender o que está acontecendo. É quando você se sente mais vivo. (…)
~ Airton Luiz Mendonça, “Mude e Marque

Entre as sugestões que o autor faz para “se sentir mais vivo” estão escolher roupas diferentes, pintar a casa de cor diferente, ler livros diferentes, mudar de paisagem, intercalar férias em países de diferentes naturezas, etc.

Mesmo que a gente acredite que manobras “externas” ajudem, renovem e cerquem a gente positivamente, eles são de fora pra dentro. Como alguns dizem, são muletas. Ou mudanças no cenário, não necessariamente no coração e na compreensão do ator. Tirar a mente do estado que acha que sabe o que vai vir ou que fica reagindo frequentemente ao que já foi é que traz a revolução para o tempo presente.

A revolução, como dizia Jiddu Krishnamurti, é viver sem condicionamentos. Ele diz:

“Quando condenamos ou justificamos não podemos ver claramente, nem quando nossas mente estão permanentemente ocupadas em suas histórias; nessas horas não percebemos o que é, nós olhamos apenas para as projeções que fizemos de nós mesmos. Cada um de nós tem uma imagem do que pensamos que somos ou do que deveríamos ser, e essa imagem, essa foto, nos impede completamente de nos ver como realmente somos”.
~ Jiddu Krishnamurti, “Total Freedom” (p.111)

Mesmo que a gente tenha dúvida de entender esse “quem realmente somos” que Krishnamurti fala, porque não reconhecemos direito a vida sem condicionamentos e julgamentos, me parece claro mesmo para quem não se conhece que as projeções obscurecem a realidade. Uma pessoa com pavor de cobras confundirá muito mais cordas enroladas no chão e no escuro com cobras do que uma pessoa que não tem esse pavor, por exemplo. Por causa do passado. A famosa máxima de Heráclito de Éfeso é também bastante definitiva: “Não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado”.

Invocando novamente Shunryu Suzuki, ele diz:

“O objetivo da prática é manter sempre uma mente iniciante. Suponha que você recite o Prajna Paramita Sutra apenas uma vez. Deverá ser uma recitação muito boa. Mas o que aconteceria com você se você o recitasse duas, três, quatro vezes ou mais? Você poderia perder facilmente sua atitude original.”
~ Shunryu Suzuki, “Mente Zen, Mente de Principiante” (p.21)

Assim, mesmo que você chegue em casa pela centésima quarta-feira à noite e prepare seu jantar com mais ou menos os mesmo ingredientes, é um momento absolutamente diferente. Apenas lembra algo anterior, que sua mente já viu, mas que você nunca viveu. Entender que sua mente já viu algo parecido antes, mas ter a consciência que tudo é novo e único ininterruptamente, é um caminho para a realidade, para ver as coisas como são. E poder contemplá-las em sua vivacidade.

“O valor primordial da vida depende mais da consciência e do poder de contemplação, que da mera sobrevivência”.
~ Aristóteles

PS: A fonte indica que o artigo citado foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo, mas não consegui confirmar (e os arquivos do jornal online não retornam resultados para o referido autor).

[ Foto: richdrogpa, direitos BY-NC-ND ] [ Dica de Cinthia Fajardo ]
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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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