A Era da Liberdade cinematográfica anti-totalitária é a Era dos Wachowsky Brothers. O meta-cinema épico (que pode ser inspirado nos quadrinhos), controversamente de ação, contemporâneo, sintético (xô pós-modernismo), metafórica e politicamente engajado, vindo de alguma plataforma superior do pensamento humano para Hollywood - viver no mundo! (melhor que apenas nos circuitos de arte) – é o motivo de “V for Vendetta“, a história de um mascarado “terrorista” que explode aparências sociais em nome de essências humanas. Com um segundo “hit da década”, os Wachowsky são os novos Spielbergs e os novos George Lucas.
Na sexta-feira, logo depois do almoço, tive uma conversinha existencial no trabalho com a Patrícia, uma colega que trabalha quase na minha frente, de messenger para messenger, cujo gancho era “coincidências existem ou não?“. Eu havia dito naquele dia que tinha um desejo de estar numa cidade X, e no dia seguinte recebi um email de um evento de mídia digital da cidade X cujo assunto era: “Are you coming to cidade X?”. E por aí fomos conversando. Se Newton e Einstein estavam certos, Deus não joga dados e nem uma ação consegue ser lançada no espaço sem que haja uma reação (a não ser que seja num buraco negro, mas eles ainda são apenas teorias, não leis). Acreditando ou não em coincidências, é difícil ignorá-las, tamanha sua (co) incidência no mundo dos acordados. Sábado (portanto, um dia depois), sentado na poltrona de “V for Vendetta”, ouço a seguinte frase do nosso protagonista, nos primeiros 5min do filme: “Eu, como Deus, não acredito em coincidências“.
V de Verdade. “V de Vingança” é mais um dos melhores filmes do ano (a safra tá boa). A sequência final é histórica e, bem mais importante que isso: é atual, tem o timing cronológico e psicológico do ano, coisa que não havia em Matrix - que é uma obra mais universal, espiritual e quadrimensional. V é um manifesto por liberdade terráquea em 2006, e estressa esse ponto-de-vista imaginando um cenário piorado baseado em alguns pontos críticos da realidade atual, até chegarmos a um totalitarismo declarado com requintes de xenofobia patológica, mas isso existe (imagino que a premissa seja meio “1984” e “Admirável Mundo Novo”). O filme é um manifesto de síntese, que prioriza a liberdade sobre todas as coisas, inclusive as tais instituições (i.e. o parlamento e seus edifícios históricos), sejam lá o que elas sejam e pra que servem nos dias de hoje. Hoje é mais importante que “histórico”. Matem o presidente, mas não matem a liberdade do ser humano - “Pronto, vá. Agora você é livre”. A metáfora do homem-mascarado (é o Agente Smith de Matrix, Hugo Weaving) não é nova mas poucas vezes foi usada com essa vivacidade, e duplamente: para representar a arte - “mentiras que revelam verdades” - e para representar a prioridade dos ideais - em detrimento a heróis pessoais com rostos que queremos sempre ver e idolatrar. Dizem que o próprio Cristo afirmou que teria que “ir” para que nós não ficássemos muito acostumados com sua identificação física, e assim pudéssemos encontrar a identificação espiritual. Como se dissessem: não queremos alguém “lá fora” como Brad Pitt, queremos nós mesmos. Oras. Quem mais? Essa talvez tenha sido o manifesto mais interessante do filme (pra mim). Nem precisava citar Shakespeare (mas a lembrança é boa). Mas talvez ninguém seja mais citado, e fale mais, para deleite da própria vingança, do que o primeiro-ministro da Inglaterra, representante futuro da administração política de um país que, no filme, é conhecido apenas como “the former United States of America”.
O filme tem momentos de dúvida sobre sua própria grandiosidade, parecendo ser comum e televisivo às vezes, mas na minha opinião tem a compostura de discurso político do nível de Altman, Von Trier e Spike Lee. Só que mascarado de Hollywood. Ser de ação e com lutas marciais e cheias de espadas causa polêmica, inclusive em mim, porque combate a violência com violência, polariza, divide (”O governo é que deveria temer…”). Mas talvez isso seja conversa de corpos animais, porque os espíritos conversam por metáforas. Por grãos de mostarda. Por batalhas em Kurukshetra. O clamor é de união universal, justamente pelo fim dos opostos. Porém, ou por isso, nessa batalha, respinga sangue no imperalismo bélico, na democracia aparente, na monarquia, na mídia (inclusive a considerada mais séria, aquela da Inglaterra), na medicina, em tudo que não seja legitimamente livre e popular. Se o universo já disse que trabalha na base da ação e reação, o que exatamente nós estamos querendo produzindo o tipo de ação que estamos produzindo? Teremos nós um V? Seremos nós o V? 93/100.
COMENTÁRIOS / 1 NOVA MSG
beta added these pithy words on Apr 14 06 at 11:18 pmYes!Temos nós uma visão sua sobre o filme. ;)
Bj
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