Escrevendo e aprendendo

Duas atividades muito interessantes para observar a qualidade da nossa atenção plena é (1) a hora de escrever e (2) a hora de garfar uma comida. Para ser tecnicamente exato, não é “a hora”, obviamente, e sim o “super-mini-ultra-mili-nanosegundo“. Você não desacelera necessariamente a ação (que vai ter que ser desacelerada ao menos um pouco), mas o foco da atenção totalmente dirigido faz com que você sinta completamente cada micro-instante do ato. Você observa a qualidade de cada pixel das suas letras, vai contornando cada letra observando o estado que você está, e como sai a letra. Pode ser super redonda, ou mais inclinada, de vários jeitos. Você molda a letra, ganha esse controle real. À mesa também é curioso, embora um pouco mais complexo porque envolve instintos do corpo e da mente humana – comer, saciar, ter prazer, ansiar, etc. Mas, uma vez que a atenção esteja integralmente ali, a realidade pára da mesma maneira. Você observa tudo como se a realidade estivesse andando sozinha, em câmara lenta. A quantidade de insights à mesa também é maior, pois cada motivação que estava encoberta pela inconsciência aparece, cada micro-ação sai de um lugar diferente. Depois, se você olhar à volta, vai ver que a realidade inteira ganhou essa amplitude e começa a aparecer mais claramente pra você – porque foi a sua consciência que se ampliou. Buda talvez tenha sido o maior cientista disso. Esse tipo de atenção está disponível a todo momento, como aqui e agora, mas há pessoas cuja experiência é mais fácil e natural porque a mente e o corpo estão mais saudáveis, ou como chamamos no Ayurveda, sátvicos. Mais limpos, calmos, em melhor funcionamento (isso decorre logicamente de um modo de vida mais equilibrado, amoroso, integrado). Mais… dhármico. O mundo fica mais real, não como “resultado”, mas no “durante” da experiência. Só não me peça para racionalizar este “real” pq eu não posso, depende dessa experiência íntima e pessoal, fora dos livros-texto de física e medicina. Uma dia, talvez, quem sabe. Enquanto isso: agora.

Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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