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Crash – No Limite

A discussão da natureza virtuosa do ser humano em meio a um aparente caos é o tema de Crash – No Limite, uma espécie de Magnólia com Collateral, por outro diretor (os três filmes acontecem em Los Angeles, não por acaso). O que triunfa (e para esse verbo ser usado precisamos de uma visão que endosse a virtuose humana) é o poder da síntese: de que nenhum “pré” funciona, de que nenhuma memória maligna de identificação é útil ou nos leva à felicidade. Há uma vida por trás de cada preconceito, há uma circunstância, e no caso de Crash, há situações-limite que não servem só para justificar atitudes baixas, mas que, simplesmente, existem. Existem no mundo, na natureza humana, giram a roda do karma, voltam como bumerangue para a mesma natureza humana. O que triunfa, então, é um entendimento sentimental, uma compaixão, um ato de se colocar e sentir no lugar do outro. Esses entendimentos não acontecem com a frequência das situações-limite, mas a câmera nos mostra que acontecem. Essa é a função de Crash. Não sei se as pessoas vão ver o filme assim, mas quando Farhad atira na menina com a capa invisível, ali há uma reação e uma conclusão, quando Jean Cabot faz sua confissão de amizade à sua empregada (“Você quer ouvir uma coisa engraçada?”), há uma síntese geral ali. Não é um final feliz, é uma “visão mais esclarecida”, por assim dizer. Se o homem anda no passo de uma evolução ou de uma percepção ampliada da realidade (afinal, ele é resultado de alguns milhões de anos disso), Crash é uma obra elucidativa, feia (como a gente tem sido) mas bonita (como a gente é).