Vivendo com identidade falsa

Por exemplo, o Migas pergunta porque precisamos de uma identidade, dessa identidade social. A ID. Questiona se não é uma maneira de limitar o homem, de criar expectativas, como se quisesse regulá-lo em várias frentes. É uma questão interessante, e universal.

Existe uma necessidade de uma identificação física, para bancos, escolas, polícia, Estado, com um propósito básico de autenticação. Fora isso, acho que muito do resto é realmente insalubre, beirando o adhármico. O excesso de valor que damos ao ego acaba por nos trair e causar toda sorte – azar! – de problemas, infelicidade e doença. Nas empresas, há prêmios, elogios, críticas e punições ao funcionário, pouco incentivo à simbiose pelo objetivo. A busca do culpado é uma atitude nascida da individualização e da falta de mutirão (num mutirão raramente há “culpados” pq o objetivo é claramente coletivo, e o método, simbiótico). Mesmo nos esportes, uma área teoricamente mais saudável, a individualidade é escancaradamente condecorada (ou reprimida) em detrimento a uma harmonia do todo – pegue o futebol, é suficiente.

E aí chegamos no cenário contemporâneo, onde a gente se esquece da música, do que ela traz, do que a gente sente, e over-venera os artistas, as bandas. A fama, cantar na tevê. Não pense que é privilégio de Hollywood, pq na alta roda se venera Hitchcock, Kubrick, Kurosawa. Monet é mais enaltecido que a beleza que ele tentava enaltecer. Jesus é uma salvação maior do que o Amor que ele vivia e por isso se tornou gigante. Buddha, Maomé.

Estou vendo um lado. Existem muitas pessoas com clara consciência do papel dos indivíduos e do significado magnânimo que está além deles. Mas em geral criou-se um establishment (sei, hoje tô usando bastante essa palavra) da falsa identididade. E um anti-comunidade de indivíduos. Talvez a coisa mais saudável seja esquecer nossa identidade para nós mesmos, e manter a mis-en-scene. Lembre-se de quem você é realmente e esqueça quem você não é. “Lá fora” são outros 500.

E quando o guarda te pedir o a sua identidade, você pode responder:
“- Ah, você diz… a minha falsa identidade”? (quáquáquá)

Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

5 Comentários

  • ddmiro vc por ter escrito um post desse, Nando!

    concordo.

    não é somente uma questão de limitar a pessoa e as suas (próprias) possibilidades…é de limitar a sua compaixão. é, porque enquanto o senso comum da massa for buscar ser competitivo, “fazer o melhor e que se dane o outro, afinal, ele não foi tão bom assim”, fica difícil ter compaixão! no máximo, pena – no Natal, dá-se um quilo de alimento e tá tudo resolvido – “coitadinhos dos pobres”… você tem que ser competitivo e vencer na vida! quantas vezes a nossa geração já ouviu isso?

    e tanta gente fica procurando ser melhor que os outros, estar mais na moda que os outros, ser mais bonito(a), pisar se for necessário, blablabla…

    acho, por exemplo, que em diferentes experiências artísticas podemos deixar de lado o falso eu, o ego. por essas – e outras – acho tão bacana e maravilhoso cantar em coro. ;) não é pra ter espaço pro ego/”falso eu”. :)

  • isso tudo ajuda muito, Nessa. ir tateando sem forçar o ego. mas pode e deve ser mais profundo e real que isso, deve ser (do nosso ponto-de-vista interior) TOTAL. só assim esse “problema” da indivdualização pode começar a ser curado.

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