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João Paulo II, uomo universale

Pra quem é professor de Teologia pode ser fácil falar de João Paulo II em comparação a outros papas, mas nós todos aqui só vimos um Papa, João Paulo II. Desde 1980 que esse era “o” Papa, e se você considerar que a tevê só existe a partir de 1950, este Papa sozinho ocupou metade do tempo de transmissão. E sem dúvida nenhuma foi a melhor metade. A mais internacional e múltipla, com tevê a cabo, Internet e o diabo, digo, o divino. Em uma frase: este foi o Papa que todo mundo viu. Foi o Papa que nos deixou a imagem de viajar o mundo todo, o Papa de abanar para todos, o Papa dos discursos pontuais em Roma, o Papa de beijar o solo de cada país assim que desembarcava do avião, o Papa que condenou todas a guerras que vimos desde que assumiu, o Papa que recebeu, conversou e despachou com diversos líderes políticos mundiais, o Papa que foi vítima de tentativa de assassinato, o Papa que perdoou publicamente seu agressor, o Papa que nunca se deixou poluir pela imagem do dogma que teve que pregar, o Papa que levou o gigante Cristianismo ao ano 2005. Seu rosto tinha a imagem que muita gente idealizava em Cristo: bondade, tranquilidade e amor.

Este papa pode, e provavelmente foi, ortodoxo, centralizador e replicador de muitos dogmas religiosos católicos (que podem ter agravado problemas sociais crônicos), mas ninguém pode julgá-lo sem conhecer as estruturas milenares (não é nem secular, é milenar, então imagine o peso-tonelada da instituição) do Cristianismo, da Igreja Católica e do Vaticano (e mesmo se pudesse, deveria tentar viver ao menos um parágrafo da Bíblia antes de se dedicar a catalogar defeitos). O mundo está impregnado de Igreja, da ruim e da boa, a ponto de esta ser considerada a maior religião do planeta. O Papa, então, seria o comandante da maior religião do mundo. Carrega nos ombros e em cada discurso um sentido de impessoalidade e de responsabilidade da instituição e da religião fundada por São Pedro e Paulo de Tarso, explicada por Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, encarnada por Madre Teresa de Calcutá, São Francisco de Assis, São João e São Paulo, revisada por Martinho Luthero, abraçada pelo Dalai Lama, musicada e pintada por Johann Sebastian Bach, Miguelangelo e Leonardo da Vinci, e, mais importante, originada na vida e nas palavras do maior profeta do Ocidente: Jesus Cristo.

Mais do que os pontos questionados pelos sociólogos protestantes (não no sentido religioso) , há muitos fatos soberanos. “Não reclame se as crianças não ouvem o que você diz, agradeça porque elas imitam cada coisa que você faz” (já dizia o ditado): esse Papa foi o primeiro e único Papa em 1700 anos de Igreja que visitou a minha cidade, uma mera “subcapital” de 300 mil habitantes de um país chamado Brasil, botou nos olhos dos meus conterrâneos a imagem de um Papa bondoso, universalista e amoroso, trouxe a esperança e sua energia únicas do líder religioso (descendente de Cristo que é) para os católicos (e mais do que eles) deste pequena ilha do “interior do planeta”. Que, como muitas outras cidades e recantos do resto do mundo, já não se sentia mais uma ilha no gigantismo católico apostólico romano. João Paulo II foi um “uomo universale“, como idealizava o Renascimento italiano. Uma qualidade contemporânea que poderia e deveria ser, também, da Igreja.