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“Deus, Deus, por que me… abandonaste?”

Essa frase é uma incógnita, não fecha com as anotações do meu caro Watson. Nenhum dos grandes iluminados da estirpe do Nazareno disse coisa parecida. Se for verdadeira, provavelmente foi um titubeio de Jesus na cruz, depois de uma trágica via crucis. Mas mesmo isso é um desafio lógico, porque Jesus teria dito, antes do último suspiro, “Pai, a Ti entrego meu espírito“, ou seja, uma postura sábia, lúcida e una. O que aconteceu então? Não sei, estou perguntando. Analisando historicamente (via Hegel), poderíamos chegar à idéia de que a Igreja precisou dessa frase para dividir o universo em dois (Deus e os homens) e clamar para si o caminho (exclusivo) da salvação. Mas isso não passa de interessante especulação – embora a Igreja tenha se beneficiado com a frase de qualquer maneira. O problema maior é que João, o único apóstolo presente à crucificação (ao lado das duas Marias), não fez qualquer menção à frase. O único que o fez foi o discípulo (e não apóstolo) Marcos (no próprio filme “A Paixão de Cristo”, tido como ortodoxo, estão os três ao pé da cruz e Marcos não aparece). Como ele pôde saber, então? Não sei. O que eu sei é que “o Pai e eu somos um“, como disse Jesus, testemunhado por João, o mais presente dos apóstolos evangelistas. E o que fica é a lição da incógnita, que às avessas mostra sua utilidade – a de questionar e nos fazer buscar as coisas por nossas próprias pernas, sem ficar delegando nossa inteligência a ninguém, por mais confiável que pareça esse alguém.