Dogville. De Lars Von Trier, com Nikole Kidman e grande elenco. Um dos filmes mais interessantes dos últimos tempos. Teatro, psicologia, cinema e uma meticulosa expressão da visão política de um autor sobre o relacionamento social “humano”, principalmente da opressão. É reflexivo, provocador, íntimo. O filme de 9 partes é uma obra-prima da arte cinematográfica, da arte de comunicar ao telespectador a visão de um autor com talento para perceber os misfortúnios da psicologia humana e do controverso comportamento social da nossa espécie. Lars Von Trier pode não ter uma visão muito bonita da humanidade (e das comunidades mais parecidas com Dogville, se é que ela não é parte da própria geografia da natureza humana), mas sua percepção e a obra que a demonstra são harmoniosamente excepcionais, valiosas e com belo vigor artístico. Há momentos em que você se sente um aprendiz de Freud, em outros você fica tão envolvido com o sofrimento de Grace (Kidman) que começa a re-examinar sua visão do mundo; há cenas em que você se pergunta o que Von Trier quer com você, Grace e Dogville, e há sequências em que você simplesmente observa com estupor a curiosa e curta (?) natureza humana.

O cenário, o clima teatral e a narração são a forma clássica homenageante de contar uma história pela sua essência, sem objetos “externos” para tirar nossa atenção. Aparentemente Grace é um anjo, Tom é um escritor reacionalista infantilizado (e isso é um pleonasmo) e Dogville é um lugar geo-inventado onde habitam homens comuns vivendo em círculos e dominados pela passiva e rasteira sabedoria individualista. A beleza, a docilidade, a não-violência e o comportamento angélico de Grace nos faz crer que ela é um ser celestial, representante da pureza de Deus - embora sua situação de fujitiva de gângsters cultive a dúvida. Ao mesmo tempo, sua chegada é o símbolo do recomeço, do recomeço da virtude. Grace é cintilante, luminosa, um espelho que reflete quem, como e o que somos nós. Grace é nosso pilar divino ideal. Tom Edison Jr. (hohoho) é um homem típico buscando alguma resposta entre o medo de viver e a balbúrdia filosófica, sincera, mas patética e pouco prática; não é a toa que ele nunca sai de Dogville. Tom somos nós. Ninguém sai de Dogville, na verdade, embora Georgetown fique logo ali depois da curva (GeorgeTown = Washington? Grandes chances). Dogville é um lugar muito curioso e muito real, psicologicamente. Dogville existe. (Dog-ville é God-ville ao contrário, ou em parte, não é?).

Depois que eu vi “As Cinco Obstruções” (mais do que “Dancer in the Dark“) eu soube que Lars Von Trier é um cineasta meticuloso, tecnicamente obcecado e desafiador da situação humana. Nada acontece de graça em Dogville e as 3h são intensas, repletas, ricas. Embora escuras. É Von Trier. O final é surpreendente, aliviador para alguns, mas ainda mais instigante para outros - eu, inclusive. O teor universalista e quase teológico da obra ganha chão político e afunila os significados, dando até a impressão que é um manifesto anti… Estados Unidos? (com a música “Young Americans” e imagens críticas da condição humana). Pode ser. Mas há mais lugares como Dogville. Eu prefiro entender como algo mais universal. O ato de Grace, que numa manifestação semelhante à dos deuses irados (o budismo tem isso, o hindu também) toma a rédeas da história (como se já não tivesse tomado antes), é um ato cosmologicamente viável e compreensível - ainda que seu pai tenha a limitada feição de um patrão político do mal (pouco se encaixa). Dogville acaba em hecatombe por falta de mérito e excesso de sofrimento, isso existe, e essa é a parte triste. A melhor parte é que isto acontece como uma lição, e uma lição se só se aprende se houver uma aula - de psicologia, de cinema, de auto-conhecimento, de sócio-política da humanidade. Essa aula acontece em Dogville. Grace, Tom e Lars são nossos mestres.

COMENTÁRIOS / 7 NOVAS MSGS

e eu adoro a Nikole Kidman!!!

COMMENT:
cara, mó viagem o dog/god-ville, é por ai, o L.V.Trier no começo do dogma95 era uma semente desafiando/provocando tudo, da temática à estética, e por mais que no dogville os desafíos estéticos continuem, na temática ele se tornou menos provocador e mais profundo, o cara há uns quatro filmes já é um fazedor de clássicos… excelente visão sobre o filme a sua!

Nessa added these pithy words on Mar 11 04 at 6:03 pm

acho que o nome do personagem do paul bettany é tom edison jr…. que serve ainda mais à piada que tom einstein, sendo um filme *teoricamente* anti-americano.

Spiceee added these pithy words on Mar 12 04 at 1:03 am

Ops, perfeitamente Spiceee. É Tom Edison Jr, consertado. A metáfora poderia ser enriquecida se fosse Einstein tb (os dois são considerados os dois maiores homens da ciência do século e da história), mas o inventor da lâmpada cabe melhor no papel do personagem de Paul Bethany. ;)

nando added these pithy words on Mar 12 04 at 7:03 am

“misfortúnios”? Infortúnios, nando, por favor. Contribua com a campanha de preservação das palavras brasileiras que expressam perfeitamente o mesmo que outras estrangeiras.

Rafael Lima added these pithy words on Mar 12 04 at 1:03 pm

Sim, poderia ser infortunios, foi automatico. deletar? ;) Engracado que, na minha cabeca, MISfortunios, com esse MIS, passa mais a impressao de ENGANO, como e MISUNDERSTAND, como em MISLEAD, e nao como em INATIVO ou INACEITAVEL, que denota fortemente a negacao. Misfortunio (”adapt. do ingl.”, como diria o Aurelio), neste caso, signifca mais um “fortunio errado, mas por engano”, do que propriamente um “infortunio” (desgraça) - ainda que neste sentido tambem. Entao, talvez nao signifiquem a mesma coisa, e mais: talvez signifique algo alem do que as duas palavras ja’ existentes em cada idioma.

Nao precisa mudar, vou soh italizar pra chamar a atencao ao neologismo.

nando added these pithy words on Mar 13 04 at 6:03 pm

nando,
e aí, tu não quer mandar um texto sobre o dogville para o nosso querido p. ?

augusto sales added these pithy words on Mar 16 04 at 9:03 pm

mando, com prazer! tô conectando via email. seeya!

nando added these pithy words on Mar 16 04 at 9:03 pm

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Dogville: 9.5/10.


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